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 Impressões e experiências do Pibid- Matemática Supervisora: Fernanda Gabriela Cleto da Silva

Pibid – UNISO
Escola Participante: E.E. Reverendo Ovídio Antônio de Souza.


Um bom ensino da Matemática forma melhores hábitos de pensamento e habilita o indivíduo a usar melhor a sua inteligência.” Irene de Albuquerque

Diversos estudos, pesquisas e resultados de exames/avaliações internas e externas à escola, têm demonstrado problemas na formação do cidadão brasileiro. Relacionado a essa constatação, temos outros indicadores como a falta de profissionais aptos para a demanda do mercado de trabalho nas mais diferentes áreas.

Dessa forma, o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID), financiado pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), têm mostrado o quão importante é o incentivo na área da educação, em aperfeiçoar e valorizar a formação de professores para a educação básica, inserindo os estudantes no contexto das escolas públicas desde o início da sua formação acadêmica, estimulando a sua permanência na docência e promovendo sua participação em experiências que sejam articuladas com as realidades locais das escolas participantes sob a orientação de um docente da licenciatura e de um professor da escola.

Ao fazer parte desse programa pude perceber o desafio e a responsabilidade que teria pela frente, pois atuar nessa função professor/supervisor significa realizar um trabalho no contexto escolar, no qual minha atuação está diretamente vinculada ao elo estabelecido com a UNISO, como colaboradora no processo de formação dos alunos do Curso de Licenciatura, de maneira que os mesmos se sintam motivados e preparados para atuarem como docentes.

A preocupação em articular o Currículo de Matemática da SEE/SP com o processo de construção do conhecimento, além da necessidade de uma atenção especial em, “como” e “com que grau de profundidade” deve ser a abordagem dos conteúdos que norteiam os eixos temáticos nas respectivas séries/anos, buscando focar o processo de ensino-aprendizagem na capacidade do educando em utilizar o conhecimento científico em substituição à capacidade de memorização, é uma preocupação que permeia meu trabalho desde o início de minha docência. Como despertar o interesse dos alunos em meio a fórmulas e regras? A experiência acumulada como professora me fez perceber que é necessário desenvolver uma atitude reflexiva diante da sua própria prática e, também, aberta para eventuais mudanças do próprio conhecimento científico.

A atitude reflexiva que o professor deve ter sobre a sua prática, o comprometimento profissional que remete à profissionalização da atividade docente e elementos que o conhecimento estritamente técnico não é capaz de assegurar, devem contemplar e abranger os cursos de licenciatura, bem como a importância do aprimoramento através de cursos de aperfeiçoamento, da constante busca em repensar sua postura e formação, inerente à vida de um professor.

Em um dos trechos da obra Pedagogia da Autonomia - Saberes Necessários à Prática Educativa (148 págs., Ed. Paz e Terra), Paulo Freire escreve:
"Na formação permanente dos professores, o momento fundamental é o da reflexão crítica sobre a prática. É pensando criticamente a prática de hoje ou de ontem que se pode melhorar a próxima prática. O próprio discurso teórico, necessário à reflexão crítica, tem de ser tal modo concreto que quase se confunda com a prática. O seu 'distanciamento' epistemológico da prática enquanto objeto de sua análise, deve dela 'aproximá-lo' ao máximo. Quanto melhor faça esta operação tanto mais inteligência ganha da prática em análise e maior comunicabilidade exerce em torno da superação da ingenuidade pela rigorosidade. Por outro lado, quanto mais me assumo como estou sendo e percebo a ou as razões de mudar, de promover-me, no caso, do estado de curiosidade ingênua para o de curiosidade epistemológica. Não é possível a assunção que o sujeito faz de si numa certa forma de estar sendo sem a disponibilidade para mudar."

O Subprojeto de Matemática vem buscando realizar um trabalho colaborativo que conjugue o espaço do curso acadêmico com o espaço onde as práticas pedagógicas acontecem, aproximando a formação inicial com a formação continuada por meio do diálogo, encontros e estudos, estabelecendo algumas ações para que aconteça contemplando os objetivos do programa. Desta forma torna-se relevante questionar: Como contribuir na prática pedagógica e numa didática diferenciada, enriquecendo a metodologia de ensino desses professores que estão por vir?

Através de um trabalho em conjunto com o Coordenador de Área, de encontros no Laboratório de Educação Matemática da Universidade- LEM, onde a preocupação em apresentar ao alunado da escola onde acontece esse projeto diferentes formas de se aprender essa disciplina tão temida por muitos e, ao mesmo, tempo incentivar a prática docente dos nossos bolsistas, foi fundamental para que a efetiva proposta do PIBID se fortalecesse tendo o resultado esperado.

Desde o ano de 2011, os alunos da graduação foram distribuídos em dois dias da semana, e bem acolhidos por toda comunidade escolar, puderam atuar em diversas situações que envolvem um profissional da educação. A participação nos ATPCs (Aula de Trabalho Pedagógico Coletivo), pôde mostrar a preocupação do corpo docente e da gestão escolar com um ensino de qualidade e com a busca da melhoria do Índice de Desenvolvimento da Educação do Estado de São Paulo (IDESP), o qual se encontrava abaixo do básico.

Aulas motivadas pela História da Matemática, manuseio de jogos, demonstrações de teoremas, utilização de softwares, atividades com sentido para o mundo externo dos alunos relacionando conteúdos aos fatos da realidade continuam contribuindo para o enriquecimento do currículo e formação de professores para uma prática crítica e reflexiva.
O conjunto dessas ações contribuiu para que a escola revertesse o resultado do Idesp (Índice de Desenvolvimento da Educação do Estado de São Paulo) em 2012, alavancando o resultado comparado ao diagnóstico feito no ano anterior, pois o fluxo escolar e o desempenho dos nossos alunos no SARESP teve um progresso em relação à meta proposta. O Índice de Cumprimento de Metas (IC) atingiu 89,47% no 9º ano EF onde o programa aconteceu.

Propiciar aos licenciandos do curso de Matemática da UNISO uma visão realista sobre o ensino desta ciência e sobre o cotidiano escolar tem sido de grande importância, além de redimensionar e inovar a minha própria prática docente.
Considero e afirmo categoricamente que este projeto não só está sendo importante para o aprimoramento do processo formativo de profissionais da área, como também para valorizar a experiência e os saberes do professor da escola.
A supervisão me faz colaboradora dessa identidade profissional.



PIBID DE HISTÓRIA NA E.E. LUIZ NOGUEIRA MARTINS: EXPERIÊNCIAS COMPARTILHADAS


Universidade de Sorocaba- UNISO
SOROCABA, DEZEMBRO DE 2012.

Murilo Rene Schoeps*
*bolsista ID do Pibid Uniso-Projeto de História

Este artigo tem por objetivo apresentar as atividades desenvolvidas pelos bolsistas do Pibid – Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência, realizadas pelos alunos Angélica Soares Martins e Murilo Rene Schoeps, dentro do subprojeto de licenciatura em História, sob supervisão da professora supervisora da escola
O diálogo entre o ensino superior e a educação básica se constitui numa das principais funções do Pibid, programa fomentado pela CAPES que visa a inserção dos licenciandos no cotidiano das escolas públicas de modo a desenvolver uma integração entre os futuros docentes junto á comunidade escolar, contemplando seus vários aspectos, quais sejam, a relação professor – aluno, os planejamentos pedagógicos, as metodologias de ensino abordadas pelos professores, o papel da direção, e, fundamentalmente, os alunos e suas origens.

Essa oportunidade permite o desenvolvimento de novas “ferramentas” a serem utilizadas por toda a comunidade escolar, além de propiciar novas reflexões a respeito do ofício do educador para todos os envolvidos no projeto.
O subprojeto de licenciatura em História, elaborado pela Universidade de Sorocaba propõe, nesse sentido, o engendramento de um “[...] círculo de discussões, em que se refletissem os problemas relativos ao ensino de História” , através da participação ativa entre a Instituição de Ensino Superior, os licenciandos e toda a comunidade escolar onde, espera-se, a experiência possa agregar principalmente aos alunos a relação entre a História e o seu ambiente mais próximo, de modo que passem a pensar a História não em torno da figura de 'grandes heróis', mas sim na construção coletiva onde todos são considerados atores históricos.

Nesse sentido, o subprojeto elaborado pela IES e aprovado pela CAPES, propõe o ensino de uma História a favor do conhecimento humanista. Considerada a lamentável situação em que se encontra o ensino público brasileiro, especificamente o paulista, acreditamos na urgência na retomada engajada do ensino das ciências humanas e sociais, de modo a possibilitar aos alunos a capacidade de construir uma criticidade competente em relação ao mundo em que vivem. Outrossim, a aplicação pelos licenciandos do subprojeto de História é encarada também como uma força auxiliar ao professor efetivo das disciplinas de História, Sociologia e demais ciências humanas e sociais, em seus esforços positivos de ministrarem aulas com pouca duração e poucos recursos oferecidos pelo Estado.

Partindo dessas constatações e da necessidade real e urgente em colaborar e propor novas reflexões a respeito do ensino de História, a percepção pelo aluno de sua relação direta com o passado, conforme nos ensina o historiador Eric Hobsbawn (1998), as atividades desenvolvidas pelos bolsistas do curso de História privilegiaram a construção do saber histórico dos alunos participantes com vistas a recuperar a memória e a história de suas origens e do meio social em que vivem, de modo que se reconheçam enquanto agentes históricos e, portanto, também capacitados a contribuir com a construção da cidadania e criticidade competentes.

Sob supervisão da professora responsável pelo Pibid na escola, Fernanda Mirim, essas atividades foram desempenhadas paralelamente às aulas de História, na forma de oficinas, com os alunos interessados das 8ª séries do ensino fundamental e Ensino Médio. Os bolsistas, ao todo dez do curso de História, foram divididos em duplas que desempenhariam o projeto junto a um grupo de alunos específicos, sob supervisão do professor responsável da escola.
Os alunos participantes das oficinas são estudantes da Escola Estadual Senador Luis Nogueira Martins, localizada na região central de Sorocaba. Os encontros, com a dupla de bolsistas, Angélica e Murilo eram realizados às sextas feiras no período da manhã, na excelente biblioteca que a escola disponibiliza.

Procurou-se ao elaborar os encontros, afastar qualquer estrutura rígida, centrada, autoritária, de modo a deixar os alunos á vontade, para que contribuíssem com suas opiniões e dúvidas. Não à toa, o esquema de círculos em que sentavam propicia esse ambiente em que os limites são definidos pelo respeito apenas e não por hierarquia absoluta.
Ao elaborar os encontros e os temas a serem abordados, considerada as especificidades do subprojeto de História mencionadas acima, procuramos seguir as lições de Javier Onrubia, colaborador da obra O Construtivismo na sala de aula, que diz:

[...] na concepção construtivista [...] a aprendizagem escolar é um processo ativo do ponto de vista do aluno, no qual ele constrói, modifica, enriquece e diversifica seus esquemas de conhecimento a respeito de diferentes conteúdos escolares a partir do significado e do sentido que pode atribuir a esses conteúdos e ao próprio fato de aprendê-los.



Ou seja, para que o aluno se reconheça como agente histórico é necessário antes que a abordagem e a experiência de aprendizagem proposta pelo professor procure reconhecer nos alunos sua estrutura e seu conhecimento prévio.
Entre os meses de agosto a dezembro, primeiro semestre de realização do programa, procuramos desempenhar as atividades previstas em três momentos teóricos e práticos junto aos alunos.

Os primeiros encontros realizados após a implantação do programa foram de conhecimento dos alunos e do que eles conheciam de suas origens, através de conversas e de um questionário aplicado. O questionário, que na concepção do grupo dos bolsistas seria a primeira intervenção para desenvolvimento do projeto, logo se mostrou limitado, ineficaz. Muitos alunos relataram as dificuldades de obter as informações solicitadas devido a problemas recorrentes em suas famílias, como pai do qual não se tem contato ou desconhece e omissões sem justificativa que podem refletir uma ausência de diálogo familiar.
Reconhecendo que não seria oportuno investir nos resultados dos questionários, a segunda ação foi teórica. Como o relato dos alunos dava conta de que grande parte era descendente de imigrantes europeus e outros de afrodescendentes, dedicamos os encontros seguintes na reflexão e contextualização histórica que se operaram na sociedade brasileira do último quartel do século XIX até o alvorecer do século XX e a consolidação do regime republicano.

Para estudar esse período, foram refletidas questões importantes que se deram nesse momento e contribuem de forma pertinente na formação da sociedade brasileira e os resquícios atuais desse processo. Os temas discutidos procuravam refletir o conceito de cidadania na Primeira República, através de um processo de modernização conservadora operada pelas elites dirigentes, excluindo as classes populares marginalizadas. A ponte para uma reflexão atual através desses temas é variada e complexa: discussões sobre a desigualdade social e temas mais específicos como a Lei de Cotas sancionada este ano pela presidenta Dilma Rousseff procuraram despertar nos alunos a importância do conhecimento histórico e sua íntima ligação com a sociedade brasileira contemporânea. Outros temas foram discutidos nesse sentido, procurando despertar a criticidade dos alunos também ao se informar pela grande imprensa, através de leitura de artigos e reportagens de veículos de informação de viés opostos a respeito de outros temas sociais, como a reforma agrária, por exemplo.

Por fim, e para corresponder aos estímulos dos alunos, passou-se à parte prática. Nos últimos meses deste semestre continuamos a analisar as condições de reprodução de vida das classes populares no início do século XX, de forma que o aluno despertasse a reflexão de que certas atitudes tomadas por seus antepassados podem não terem sido decididas influenciadas apenas por questões particulares e sim motivadas por consequências de determinado processo histórico que moldou a origem de seus descendentes.
Os trabalhos que nos serviram de base para análise das fontes junto aos alunos são enriquecedores. Do historiador e professor da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Sidney Chalhoub, utilizamos Trabalho,lar e botequim: O cotidiano dos trabalhadores no Rio de Janeiro da belle époque. Nesta obra, o autor utiliza de uma fonte histórica específica e estimulante aos alunos: os processos crimes. Ao analisar os processos crimes enquanto fonte histórica, Chalhoub não procura reproduzir incidentes domésticos do início do século passado como curiosidade e sim, como competente historiador, redimensionar e perceber quais as consequências de determinado processo histórico influenciaram a vida desses indivíduos na capital federal da Repúbica Velha. Segundo ele “nesta tentativa de reconstituição de alguns aspectos essenciais dessas tensões e conflitos cotidianos, destaca-se a importância das rivalidades étnicas e nacionais enquanto expressão das tensões provenientes da concorrência da força de trabalho – em condições bastante desfavoráveis – num mercado de trabalho capitalista em formação” . (CHALHOUB, 2008, p. 59).
Assim, seguindo a metodologia de Chalhoub, propomos aos alunos uma construção do saber histórico em conjunto, atuando a partir da análise das fontes por ele utilizadas.

Outro trabalho fundamental para esta parte prática junto aos alunos foi a pesquisa do historiador Carlos José Ferreira dos Santos, Nem tudo era italiano: São Paulo e pobreza (1890-1915). Este trabalho foi escolhido para ser abordado junto aos alunos por focalizar a cidade de São Paulo, cenário mais próximo ao nosso, e utilizar de uma variada gama documental, como relatórios oficiais, cronistas, mas principalmente a fotografia. Através das fotografias desse período, Santos recupera sujeitos históricos marginalizados diante do processo de modernização conservadora operado nas grandes cidades brasileiras com a consolidação do regime republicano e a interiorização das relações capitalistas, atingindo as classes populares, especificamente ex-escravos e imigrantes, foco de nosso estudo junto aos alunos integrantes das oficinas.

Ao recuperar esses sujeitos históricos, Santos (2008,p. 17) “ tem como preocupação principal tentar buscar formas de compreensão acerca dessas experiências, dos modos de vida e das maneiras pelas quais os nacionais despossuídos interagiram com as transformações que estavam ocorrendo na fisionomia humana e urbana, durante a virada do século, na cidade de São Paulo”.
Assim, buscamos propiciar aos alunos encararem a fotografia como fonte histórica, passível de reflexão e reconstrução do passado de seus antecedentes e os processos históricos por eles vivenciados.
Para concluir, ressaltamos que a experiência vivenciada com este projeto neste semestre deve ter despertado considerações importantes aos alunos em suas concepções de mundo e do lugar social que ocupam. Não obstante, experiência de grande valia sentimos nós, ao ter oportunidade de colaborar, trocar e aprender a tecer a construção do conhecimento histórico, fundamental na construção de uma sociedade mais justa e humanizada.

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